Carnaval no DF: Coletivos Transformam Folia em Autocuidado e Resistência

© Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agênci

Em uma folia pré-carnavalesca em Brasília, realizada neste domingo (8 de fevereiro), a professora carioca Carmen Araújo, de 59 anos, encontrou no samba um caminho para o autocuidado. Há 15 anos, ela dedica-se aos cuidados do pai, de 89 anos, que vive com Alzheimer, e reconhece a importância de reservar um tempo para si. Carmen é integrante do coletivo Filhas da Mãe, fundado em 2019 com a missão de apoiar cuidadores, em sua maioria mulheres, de familiares com doenças demenciais. Durante o período festivo, o grupo assume a forma de um bloco carnavalesco.

A Folia como Caminho para o Bem-Estar e a Luta por Visibilidade

Para Carmen Araújo, a participação no coletivo e na folia é vital. “Se a gente não se cuidar, adoecemos também”, ressalta. Seu amor pelo carnaval é uma herança paterna; o pai, inclusive, participava ativamente das festividades até que a doença o impedisse. A experiência no coletivo permitiu a ela compartilhar vivências e colaborar com outras famílias que enfrentam desafios semelhantes.

A psicanalista Cosette Castro, cofundadora e diretora do Filhas da Mãe, explica que a iniciativa surgiu da própria vivência com a mãe, que teve Alzheimer e faleceu há cinco anos. “As pessoas falam muito de remédio, de como cuidar. Mas ninguém olha para nós que estávamos cuidando e com sobrecarga”, pondera. Ela enfatiza a necessidade de resgatar a alegria e a “criança interior”, combatendo a culpa de se sentir feliz em meio a responsabilidades contínuas.

A Abrangente Rede de Apoio do Coletivo

Além da celebração carnavalesca, o coletivo Filhas da Mãe atende cerca de 550 pessoas diariamente, oferecendo uma rede de apoio que inclui serviços virtuais voluntários. O foco principal é a promoção da saúde, a visibilidade para o diagnóstico precoce de doenças demenciais, como o Alzheimer, e a conscientização sobre a sobrecarga imposta aos cuidadores.

Cosette Castro aponta que problemas de saúde como lesões na coluna, fibromialgia, hipertensão, problemas cardíacos e transtornos mentais são recorrentes entre esse público, que frequentemente sofre com insônia e altos níveis de ansiedade. Para informar e apoiar, o coletivo organiza eventos como caminhadas, exposições e, claro, o carnaval. A diretora ainda destaca o valor terapêutico da música, mencionando que as letras das canções são frequentemente uma das últimas memórias preservadas em pacientes com demência.

Reforçando a importância do autocuidado, Márcia Uchôa, de 69 anos e também fundadora do grupo, compartilha que sua mãe, Maria, de 96 anos, com diagnóstico de Alzheimer, tem grande apreço por música e crochê. “A gente precisa se cuidar e o carnaval está dentro da gente”, afirma Márcia, que preferiu não levar a mãe à folia devido ao tempo chuvoso em Brasília.

Combate ao Preconceito na Folia Candanga

Paralelamente à festa do Filhas da Mãe, outro coletivo local, o Me chame pelo nome, trouxe sua própria mensagem de alegria e resistência. Com uma fanfarra composta por pessoas com deficiência, o grupo desfilou com o propósito de combater o preconceito e promover a causa anti capacitista através da arte.

Esta é a segunda participação do Me chame pelo nome no carnaval de Brasília, segundo a servidora pública Aline Zeymer, uma das coordenadoras. O coletivo busca, por meio da folia, conscientizar e celebrar a diversidade, reforçando a importância da inclusão e do respeito a todas as formas de expressão.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br


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