O Ministro da Fazenda Fernando Haddad afirmou que a classe dominante brasileira entende o Estado como uma posse particular, e não como uma instituição coletiva. A declaração foi feita durante o evento de lançamento de seu livro Capitalismo Superindustrial, que contou com um bate-papo com Celso Rocha de Barros e mediação de Lilia Schwarcz, realizado no Sesc 14 Bis, em São Paulo.
A Percepção do Estado e a Fragilidade Democrática Brasileira
Para contextualizar sua tese, Haddad remontou à abolição da escravidão. Ele argumenta que, após a assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888, o Estado foi, metaforicamente, entregue aos fazendeiros como uma indenização. O movimento republicano, que teve início em 14 de maio de 1888, obteve êxito um ano depois, substituindo a classe dirigente por uma classe dominante que assumiu a gestão estatal como se fosse sua propriedade, um problema que, segundo Haddad, persiste até hoje.
Esse ‘acordão’ histórico, operando sob os auspícios das Forças Armadas, gera uma reação imediata quando é questionado. O ministro concluiu que a democracia no Brasil é inerentemente problemática e frágil, pois sua essência reside na contestação desse status quo. Quando essa contestação se intensifica, há um risco latente de ruptura institucional.
O Livro "Capitalismo Superindustrial" e o Cenário da Desigualdade
Lançado pela Companhia das Letras, o livro Capitalismo Superindustrial, de Fernando Haddad, explora os processos que levaram ao atual modelo global. A obra discute um capitalismo marcado por crescentes desigualdade e competição, abordando temas como a acumulação primitiva de capital na periferia do sistema, a incorporação do conhecimento como fator de produção e as novas configurações de classe.
Haddad projeta que a desigualdade continuará a aumentar. Ele pontua que, quando o Estado atua para mitigar os efeitos do desenvolvimento capitalista e organiza a sociedade em torno de uma desigualdade moderada, as tensões sociais diminuem. No entanto, sem essa intervenção, a dinâmica capitalista conduz a uma ‘desigualdade absoluta’, transformando diferenças em contradições. O ministro acredita que a sociedade se encontra atualmente nesse momento de imposição das contradições.
A obra é uma compilação e atualização de estudos sobre economia política e o sistema soviético, realizados por Haddad nas décadas de 1980 e 1990. O livro também se aprofunda nos desafios apresentados pela ascensão da China como potência global.
Acumulação de Capital e Revoluções no Oriente
Uma das análises presentes no livro busca entender o que ocorreu no Oriente em relação à acumulação primitiva de capital. Haddad propõe um padrão próprio, distinto da escravidão na América ou da servidão no Leste Europeu, mas que, apesar das diferenças, atingiu objetivos de desenvolvimento semelhantes.
As revoluções no Oriente, segundo o autor, foram antissistêmicas e anti-imperialistas. Ele destaca que o despotismo e a violência do Estado nesses contextos serviram a propósitos industrializantes, ao contrário do que se viu no Leste Europeu e nas Américas. Essa dinâmica apresenta uma contradição: internamente, as formas de acumulação de capital eram coercitivas e violentas; externamente, contudo, irradiavam uma potência antissistêmica que inspirava povos em busca de liberdade e emancipação nacional, embora não necessariamente de emancipação humana, o que as diferenciava de revoluções socialistas.
Em sua avaliação sobre o sucesso ou fracasso desses processos orientais, Haddad pondera que houve um avanço significativo no desenvolvimento das forças produtivas e na mercantilização da terra, do trabalho e da ciência. No entanto, ele ressalta que os ideais que motivaram os líderes revolucionários não foram plenamente alcançados, evidenciando uma contradição inerente a esses movimentos.
Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br
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