Projeto ‘Circuito Cultural’ Amplia Acesso à Cultura em Salvador

Agência Brasil

Moradores da comunidade de Águas Claras, em Salvador, tiveram a oportunidade inédita de explorar o centro histórico da cidade e a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) no último sábado (8). A iniciativa, parte do projeto Circuito Cultural, visa democratizar o acesso a equipamentos culturais, antes pouco acessíveis para essa população.

Impacto Direto nas Vidas dos Moradores

Entre os participantes, um grupo de mulheres com mais de 60 anos, frequentadoras da Biblioteca Comunitária Condor Literário, vivenciou a experiência pela primeira vez. Uma delas, Soraia Santos Pinto, de 61 anos, moradora de Águas Claras, relatou a importância da cultura em sua vida. Após superar um quadro de depressão, ela encontrou apoio na biblioteca, onde participa de aulas de boxe, capoeira e dança. Através do projeto, Soraia visitou a Flipelô, a Fundação Casa de Jorge Amado e o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), locais até então desconhecidos. “A gente tem que fazer isso mais vezes. Isso abre o nosso entendimento. Isso é cultura e é bom para a gente. Eu amei. Tem pessoas que nunca tinham vindo no Pelourinho, nunca estiveram aqui. Eu acho que eles deviam fazer isso com a maioria da comunidade, levar a cultura ou trazer o povo até a cultura, já que a cultura não vai nas periferias”, afirmou.

Também presente no passeio, Maian Oliveira, de 36 anos, levou seus três filhos, membros da capoeira Unira, para conhecerem o Muncab pela primeira vez. “Estou fazendo um passeio com minhas crianças. Eles fazem parte da capoeira Unira. Aí eu vim trazer eles para dar um passeio. Eu acho a cultura muito importante. Ela mostra quem nós somos, de onde nós viemos. E é muito importante a gente apresentar isso para nossas crianças, que estão chegando agora”, destacou Maian. Ela enfatizou as dificuldades de levar as crianças ao centro histórico, citando os desafios de transporte e logística familiar: “No dia a dia é mais difícil trazer as crianças. Quando se tem mais de duas crianças, se torna ainda mais difícil porque o transporte fica um pouco complicado”.

O Contexto de Águas Claras e a Barreira Geográfica

Apesar de residirem na capital baiana, muitos moradores de Águas Claras enfrentam obstáculos para acessar os equipamentos culturais da cidade. O bairro está situado a cerca de 25 minutos do centro histórico de Salvador, criando uma distância que historicamente dificultava a integração cultural. Aline Dias, articuladora territorial de Águas Claras, descreveu a comunidade como autossuficiente e tradicional, que por muito tempo permaneceu à margem do desenvolvimento urbano.

Essa realidade começou a mudar com a chegada do metrô e a construção de uma rodoviária, que ampliaram as conexões e fortaleceram as ações sociais e culturais locais. “Tenho visto uma certa mudança no comportamento da própria comunidade. Primeiro sobre a autoestima da comunidade em relação à cidade. Agora ela já começa a ter mais coragem e confiança para poder expor o que acontece de bom por lá”, observou Aline. Apesar das iniciativas internas, como a biblioteca comunitária, Aline ressaltou a necessidade de políticas públicas que valorizem e deem vazão às manifestações culturais da comunidade. “Se houver investimento nas comunidades, a gente vai aumentar as esferas literárias. As comunidades têm muito a falar, tem muito a escrever”, completou, enfatizando o desejo dos moradores de participar também de eventos externos, como a Flipelô, que antes não fazia parte de seu repertório cultural.

A Iniciativa por Trás do Acesso: Projeto Circuito Cultural

O projeto que viabilizou o passeio para os moradores de Águas Claras é o Circuito Cultural, uma iniciativa da sociedade civil, concebida pelo Instituto Motiva. Seu objetivo é expandir o acesso à cultura para estudantes da rede pública e participantes de organizações sociais, oferecendo visitas gratuitas a importantes instituições culturais em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador.

Segundo o Instituto Motiva, a criação do projeto responde a um cenário de acesso limitado e desigual a equipamentos culturais no Brasil. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) corroboram essa realidade, indicando que menos de um terço dos municípios brasileiros dispõe de museus, o que sublinha a urgência de iniciativas que promovam a inclusão cultural.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br


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