Morre Elza Berquó, Demógrafa Pioneira e Referência nos Estudos Populacionais Brasileiros

© Leo Ramos Chaves/Revista Pesquisa FAPESP

Faleceu em São Paulo, nesta quinta-feira (16) de novembro de 2023, aos 100 anos, a renomada demógrafa, professora e cientista Elza Salvatori Berquó. Sua trajetória, marcada pelo rigor acadêmico e compromisso social, foi fundamental para a compreensão das transformações demográficas e sociais do Brasil.

A Trajetória de uma Pioneira

Formada em matemática, Elza Berquó dedicou décadas à análise de dados demográficos e censitários, desvendando as complexidades da população brasileira. Sua expertise foi crucial na articulação de importantes centros de pesquisa no continente, essenciais para entender a urbanização do Brasil e as profundas mudanças que moldaram o país entre as décadas de 1960 e 2000.

Compromisso Social e Direitos Reprodutivos

Berquó destacou-se por sua defesa incansável do acesso consciente e esclarecido a métodos contraceptivos, à questão do aborto e aos direitos reprodutivos para toda a população. Também abordou com persistência e rigor problemas sociais como a mortalidade infantil. Jacqueline Pitanguy, fundadora da ONG Cepia Cidadania, ressaltou seu legado, afirmando: “Ela trouxe ao mesmo tempo o rigor acadêmico e o compromisso político com os direitos humanos, o que é uma coisa rara”.

Educação e Carreira Inicial

Nascida em Guaxupé (MG), Elza iniciou sua formação em Matemática na Universidade Católica de Campinas. Concluiu mestrado em Estatística pela Universidade de São Paulo (USP) em 1949 e especializou-se em Bioestatística na Columbia University, USA, no ano seguinte. Em 1965, obteve grande reconhecimento ao analisar o desenvolvimento da população paulista com base nos censos de 1940 e 1950, enquanto atuava na Faculdade de Saúde Pública da USP.

Resiliência e Fundação de Instituições Cruciais

Em 1968, durante o regime militar, Elza Berquó foi compulsoriamente aposentada da USP. Contudo, sua resiliência a levou a ser uma das fundadoras do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) em 1969, ao lado de intelectuais como Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni e José Arthur Giannotti, que buscavam um espaço de pensamento crítico em tempos de repressão.

Legado e Reconhecimento Duradouro

A demógrafa foi também cofundadora do Núcleo de Estudos de População da Unicamp (Nepo-Unicamp), instituição que, em homenagem ao seu legado, leva seu nome desde 2014. O Nepo-Unicamp centralizou as celebrações de seu centenário em outubro do ano passado, em justas homenagens à sua presença e contribuição. O ex-coordenador do Nepo-Unicamp, José Marcos Cunha, afirmou: “Elza é a história da demografia no Brasil e, particularmente, da Unicamp, que se tornou pioneira nos estudos na área”. Em 1995, fundou e presidiu a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD), órgão federal que assessora decisões estratégicas na área.

Sua partida foi lamentada por colegas e admiradores. Gláucia Marcondes, atual coordenadora do Nepo, comentou: “Hoje é um dia triste porque perdemos uma mulher fantástica, uma cientista inspiradora. Mas, ao olhar para a vida de Elza, celebramos suas conquistas, as pessoas que ela formou, as instituições que criou e sua trajetória incrível”. Richarlls Martins, presidente da CNPD, destacou que “Elza Berquó acreditou profundamente no Brasil, contribuiu para a ampliação dos direitos humanos de todas as pessoas, viu pessoas atrás dos números e defendeu ao longo de toda sua vida, a democracia e as políticas públicas baseadas em evidências”. O acadêmico Eduardo Rios Neto, que colaborou com ela na ABEP, a descreveu como “a mãe da demografia brasileira”, enfatizando sua trajetória excepcional na criação de instituições como a ABEP, o Nepo e a CNPD.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br


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