Tarifa Zero: Estudo da UnB Revela Impacto da Mobilidade na Saúde e Desigualdades Raciais

© Marcelo Camargo/Agência Brasil

A precariedade e o custo do transporte público no Brasil impõem severas barreiras ao acesso a serviços essenciais, como a saúde, e exacerbam desigualdades sociais e raciais. Essa é a principal conclusão de um novo estudo desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), que sugere a implantação da tarifa zero universal como uma política estruturante para mitigar esses problemas.

A realidade vivenciada por Núbia Sales Veras, auxiliar de serviços gerais de 52 anos, exemplifica o cenário. Residente na Cidade Ocidental, em Goiás, ela percorre diariamente cerca de 50 quilômetros (km) até seu trabalho no Lago Sul, em Brasília. A jornada desgastante, o alto custo da tarifa e a baixa qualidade do transporte limitam seu acesso a tratamentos cruciais, como o de fibromialgia, uma síndrome crônica.

“Já perdi compromisso, já perdi consulta do meu tratamento no [hospital] Sarah, tudo por causa da demora do ônibus e do valor da passagem”, relatou Núbia à Agência Brasil em 12 de abril na Rodoviária do Plano Piloto. O custo diário de R$ 18 com passagens não apenas afeta sua saúde, mas também restringe sua vida social e oportunidades para suas filhas, impedindo o acesso à cultura ou a escolas mais distantes, porém de melhor qualidade.

Barreiras à Saúde e o Estudo da UnB

O artigo da UnB, intitulado “Quem pode circular? Tarifa zero, mobilidade e desigualdades raciais no acesso à cidade e aos serviços“, detalha como o custo tarifário e a precariedade do transporte – incluindo superlotação, insegurança e imprevisibilidade – criam obstáculos concretos à continuidade do cuidado em saúde. Essa situação resulta em atrasos de diagnósticos, faltas a consultas agendadas e prejuízos no acompanhamento preventivo de doenças crônicas.

Racismo Estrutural e Desigualdade de Acesso

O relatório técnico aponta que os longos tempos de deslocamento nas regiões metropolitanas atuam como agravantes de sofrimento psíquico, estresse crônico e exaustão, potencializando quadros de ansiedade e depressão. Esses impactos são particularmente acentuados sob a ótica das desigualdades raciais, dado que a população negra está sobrerrepresentada entre os grupos de menor renda, residentes em territórios periféricos e mais dependentes do transporte público.

As barreiras econômicas e territoriais à mobilidade incidem de forma desproporcional sobre essa população, limitando o acesso à cidade e aos seus serviços. Aposentada Helena Simão, uma mulher negra de 72 anos que convive com osteoporose, reflete essa realidade. Mesmo com a gratuidade para idosos, Helena enfrenta a baixa frequência de ônibus em Samambaia, região administrativa do DF a 30 quilômetros do centro, o que a faz perder consultas médicas.

Dados do DataSUS, citados na pesquisa, reforçam essa disparidade ao mostrar que mulheres negras enfrentam o dobro do risco de morte materna em relação a mulheres brancas, um fato diretamente conectado às restrições de locomoção impostas pela segregação urbana.

Tarifa Zero como Ferramenta de Redução de Desigualdades

O estudo da UnB argumenta que a remoção da barreira econômica do transporte público, por meio da implantação da tarifa zero universal, possui o potencial de atuar como uma política estruturante de redução de desigualdades. A medida, segundo os pesquisadores, transcende a simples facilitação do trânsito, impactando diretamente a qualidade de vida, o acesso à saúde e a inclusão social da população mais vulnerável.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br


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