Registros históricos revelam poupanças de escravizados para alforria

© Marcelo Camargo/Agência Brasil

Um importante capítulo da história brasileira começa a ser desvendado. Pesquisas recentes revelam registros financeiros de pessoas escravizadas no século 19, sugerindo que valores depositados em contas da Caixa Econômica Federal podem ser quantificados, atualizados e restituídos a seus descendentes. A hipótese central é que esses fundos eram poupanças destinadas a custear a alforria de indivíduos, antes da abolição da escravidão em 1888. À época da abolição, o Brasil contabilizava 723.419 pessoas escravizadas, conforme registros da Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas.

Ação do Ministério Público Federal

O Ministério Público Federal (MPF) já identificou 158 cadernetas de poupança abertas por pessoas escravizadas no acervo histórico da Caixa. Para expandir essa investigação, o MPF determinou que o banco forneça informações detalhadas sobre esses registros. A solicitação inclui a equipe que será envolvida na apuração, a metodologia a ser adotada e a quantidade disponível dos chamados ‘livros de conta corrente’, que contêm anotações de depósitos, saques e a remuneração de juros de 6% a cada seis meses, referentes às poupanças de ex-escravizados.

Resposta da Caixa Econômica Federal

Em nota, a Caixa Econômica Federal informou que tem contribuído com o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro e apresentou, dentro do prazo, todas as informações solicitadas. O banco público destacou que a guarda, conservação e pesquisa de seu acervo histórico é um processo contínuo e permanente, realizado por equipes multidisciplinares no âmbito da Caixa Cultural, respeitando os limites e condições materiais do acervo. A Caixa reforça, ainda, seu papel histórico na promoção da igualdade racial e suas políticas estruturantes de combate ao racismo.

O Desafio da Documentação Histórica

A vastidão da documentação a ser investigada abrange não apenas o século 19, mas toda a história do banco. Segundo a historiadora Keila Grinberg, professora da Universidade de Pittsburgh, os documentos para triagem, se dispostos lado a lado, se estenderiam por 15 quilômetros, uma medida 3,6 vezes maior que o calçadão da Praia de Copacabana. A tarefa envolve organizar, digitalizar, catalogar, analisar e disponibilizar o material à sociedade. Atualmente, não há estimativas sobre o número total de cadernetas de poupança abertas antes da abolição, nem sobre o paradeiro do dinheiro. A ação do MPF busca justamente impulsionar a organização e disponibilização dessa documentação para o avanço das pesquisas.

Rompendo o Silêncio da Escravidão

Para o historiador Itan Cruz Ramos, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o avanço dessa pesquisa é crucial para romper com sigilos históricos e com o senso comum que disfarça ou nega a segregação racial no Brasil. Ele argumenta que a estrutura das relações raciais no país opera sob a lógica do silêncio e da dissimulação. A perda e a degradação dos arquivos, segundo o historiador, não são acidentais, mas sim reflexo de um país que reluta em lidar com o trauma da escravidão e a luta por direitos do povo negro. Cruz Ramos, autor de um artigo publicado em 2024 na Revista de História da USP, reitera que o Brasil nunca deu a devida importância ao seu passado escravista sob a perspectiva das pessoas negras.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br


Descubra mais sobre Bastidores da Nação

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Mais recentes

Descubra mais sobre Bastidores da Nação

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading